É engraçado como às vezes as coisas acontecem, parece destino, ou coincidência mesmo, ou talvez seja Deus verificando como anda nossa capacidade de partilha.

Certo dia estava sentado com alguns amigos em uma sorveteria, que já era de costume frequentar. Já se passava das nove da noite, fazendo com que não tivesse mais loja alguma aberta na minha pequena cidade. Como sempre, riamos e contávamos nossos sonhos, desejos e alguns fatos que haviam acontecido no decorrer da semana. Enquanto saboreávamos um delicioso milk-shake, falávamos sobre nossos objetivos para os próximos meses.

Enquanto isto apareceu mais um ser para compartilhar de nossa alegria. Parecia que sentia fome, pois seus olhos apagados transbordavam tristeza enquanto seu corpo magro e visivelmente doente aparentava, mesmo com uma linda cor mel, uma vida sofrida de pouco zelo. Era um cão, que aproximando com cautela, imagino que por já ter apanhado bastante, parecia falar com sua cabeça baixa implorando por comida. Vendo esse estado do cão, uma amiga que gosta muito animais se levantou na mesma hora e mesmo com tudo ao redor sem funcionamento, começou a caminhar para encontrar uma padaria, ou alguma lanchonete ainda aberta. Depois de algum tempo, retornou com um saquinho na mão que aparentava ter um salgado dentro. Quando ela se sentou aconteceu algo que parecia ser coincidência: um homem veio em direção a nossa mesa. Era magro, aparentemente doente e transmitia uma tristeza própria de uma pessoa que acabara de ser derrotado em algo que sonhara. O homem se aproximou com um baixo olhar do mesmo modo que fez o cachorro, no entanto, com a capacidade que o cão não tem, falou:

– Vocês não teriam algo para comer, ou um dinheiro para que eu possa comprar um salgado?

Parecia que o homem sabia do acontecido, mas não. Ele não sabia que a minha amiga estava com um salgado e que estava prestes a dá-lo ao cão.

No mesmo instante olhei para minha amiga sem falar nada, apenas olhando com aquele olhar que parecia dizer: “Dê o salgado a ele!”. Mas não, ela não teve esse raciocínio e nem a intenção, ao invés disso ela disse que não tinha nada, seguido pelos outros “nãos” de todos que compunham a mesa. Eu disse que não tinha comida, mas disse que se ele quisesse um sorvete eu lhe daria. Com um grande sorriso ele acenou a cabeça dizendo que sim, pegou seu sorvete e agradeceu.

Naquele momento em que o homem saía e eu voltava à mesa, estavam todos brincando com o cão e ofertando-lhe um pedaço de salgado, ao mesmo tempo em que lamentavam pelo estado do cão, acariciando e acolhendo-o. Foi então que eu pensei comigo mesmo, por que será que o cão vale mais do que o homem?!? Por que sendo o cão incapaz de pronunciar palavras obteve alimento e carinho, e o homem que rogou por algo que saciasse sua fome não ganhara nada?

Esta história aconteceu em Patos de Minas – MG, e acredito que infelizmente vem acontecendo todos os dias, em todos os lugares. Talvez não seja só a comida que lhes falta, mas valor humano. Muitas, muitas vezes mesmo, o pecado que outros cometeram contra nós nos afasta das pessoas, temos medo, não acreditamos mais nelas. Vejo que a maior barreira para um ser humano amar o próximo é o pecado.

Somos constantemente enganados pelo pecado da mentira, pessoas mentem e nos enganam. Porém, mesmo com a mentira, nunca irá se apagar no olho de cada pessoa enquanto viva ela estiver, a condição de filha de Deus. Não importa o que a outra pessoa vai fazer com aquilo que ela lhe pedir, a nós cabe nos doar. Os Dons de Deus são gratuitos! E temos de sobra o dom de amar, mas amar parece uma palavra que não cabe a desconhecidos.

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, este é o grande ensinamento. Jesus não importou se a mulher adúltera tinha pecado, mas acolheu, olhou nos olhos e disse: “Vai e não tornes a pecar”. As pessoas que se aproximam de nós precisam mais do que da nossa piedade, precisam receber nosso amor.  Deus sempre tem uma nova chance para nós, mas será que nós temos dado uma nova chance para nossos irmãos?

Que o dom do amor possa superar em nós toda indiferença que nos afasta do próximo. Peçamos a Deus que nos ensine cada dia a amar o próximo.

 

Marcos Vinícius Costa (M.V.C)

Patos de Minas – MG