Os vitoriosos estarão em estado de graça.
A Copa do Mundo está começando. O Brasil inteiro estará assentado diante dos aparelhos de TV. A vitória é intensamente desejada. Os jogadores – se o Brasil ganhar – serão transformados em heróis nacionais, deuses do futebol. Por um momento o tempo dará lugar à eternidade. Os vitoriosos, jogadores e torcedores, serão banhados por sua luz, terão suas almas lavadas, estarão em estado de graça.

O prêmio será a taça levantada para a contemplação dos olhos ávidos de felicidade e de glória. Os vencidos, de olhos baixos, se entregarão ao choro. Como é ruim, frustrante, a derrota! É assim que a disputa esportiva revive, na força da dramatização ritual-simbólica, o drama profundo da existência humana. Há uma batalha de fundo em que todos estamos metidos e que não admite derrota. Esta seria a destruição e a morte definitiva. Marx havia pensado que a religião era tão-somente a expressão simbólica de aspirações não realizadas na vida real, a solução fantástica de problemas reais, a compensação transcendente para frustrações históricas. Nós pensamos que a dimensão religiosa é a mais profunda dimensão da existência humana. O mal deve ser vencido desde as raízes mais profundas do ser humano. Sozinhos, não venceremos; precisamos de redenção, da graça de Deus e temos que lutar articulados, em equipe, por um projeto maior, sem estrelismos, sabendo que a vitória é possível e está ao nosso alcance. É preciso, entretanto, ter garra, dar a vida, o sangue, durante todo o tempo da partida. Assim nos ensina Jesus: “Quem quiser salvar sua vida – sua pele – perdê-la-á e quem perder sua vida por causa de mim, salvá-la-á” (Lc 9,24).
Não podemos repetir na vida os erros que os derrotados cometem nas disputas esportivas. Ninguém recebe a coroa – a taça – antecipadamente e ninguém vence sozinho. A vitória é obra coletiva, garantida por Deus para aqueles que lutam, com garra e inteligência, até o fim. Oxalá eu possa, quando soar o apito final, repetir com São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor sua Aparição” ( II Tm 4,7s).

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

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